domingo, 4 de abril de 2010

Relações Internacionais dos Tempos Modernos

Entre os séculos XVI e XVIII, o mundo europeu foi marcado pelo conflito entre os “estados nacionais” emergentes (França, Inglaterra, etc.) e os “Impérios multinacionais” ( Sacro Império Romano – Germânico, depois Império Austro – Húngaro, Império Russo e Império Turco – Otomano ). No século XIX, esse confronto faria aflorar a “questão das nacionalidades”. Passaria a imperar o conceito de que cada comunidade nacional deveria ter seu Estado. No ano de 1848, denominado de a “Primavera dos Povos”, eclodiram revoluções nacionalistas na Polônia, na Hungria, na Alemanha e o Reino do Piemonte tentou, infrutiferamente, unificar a Itália. Assim, no século XIX, a realidade política do “estado nacional” gerou a ideologia do “nacionalismo”.
As relações internacionais européias, ao longo dos Tempos Modernos, oscilaram entre tentativas de hegemonismo e períodos marcados pelo “equilíbrio de poder”. No século XVI, o cenário político do Velho Continente foi marcado pelo predomínio da dinastia dos Habsburgos, família que reinava na Espanha e no Sacro Império Romano – Germânico, que compreendia o centro e o leste europeus. Na ocasião, a França se via cercada pelo “anel de ferro Habsburgo”, que limitava a projeção internacional da dinastia Bourbon. De fato, a França se confrontava com Habsburgos na Espanha, nos Países Baixos ( atualmente, Holanda, Luxemburgo e Bélgica ) e no Sacro Império Romano – Germânico.
No século XVII, quando da “Guerra dos Trinta Anos” ( 1618 – 1648 ), a França, vitoriosa, quebrou o “anel de ferro Habsburgo”, tornando – se hegemônica na Europa. Este triunfo francês foi formalizado pela “Paz de Westphalia” ( 1648 ), que significou a primeira vitória de um estado nacional – a França – sobre um império multinacional – o Sacro Império. O Estado – Nação, pela primeira vez, se impunha sobre uma entidade imperial. No cenário mundial, começava a predominar a modernidade política.
A hegemonia francesa ao longo do século XVIII seria contestada pelo interesse inglês de estabelecer na Europa o “equilíbrio de poder”. A Inglaterra desejava que, na Europa Continental, nenhuma nação fosse dominante em relação às demais. Assim, o governo britânico promoveu a “política da gangorra”: se uma determinada nação se tornasse mais forte do que as outras, a Inglaterra se posicionaria ao lado dessas
últimas. Em termos geopolíticos, o “fiel da balança” europeu passou a ser a Inglaterra.
No início do século XIX, Napoleão Bonaparte, afrontando a Inglaterra, a Áustria, a Prússia e a Rússia, buscou novamente tornar a França hegemônica na Europa. Sua derrota, na batalha de Waterloo (1815 ), levou as nações do Velho Continente a buscar, uma outra fórmula para estabelecer o “equilíbrio de poder” na Europa.

EUROPA DA PRIMEIRA METADE DO SÉC. XIX

O panorama político europeu do século XIX foi totalmente modelado pelo conceito geopolítico do “equilíbrio de poder”. Prevaleceu, então, a REALPOLITIK , ou seja, o princípio de que as relações internacionais não devem ser norteadas pela ética ou ideologias, mas, sim, pela defesa dos interesses nacionais. Em suma, os estados não têm “amigos” e nem compartilham ideais, simplesmente fazem valer seus objetivos econômicos e políticos. No cenário internacional, o realismo amoral deve conduzir a ação dos estados.
Este novo projeto de “equilíbrio europeu” nasceu no CONGRESSO DE VIENA (1814 – 1815),
quando as principais nações européias – França, Inglaterra, Prússia, Rússia e Áustria – buscaram:
1. restaurar o Absolutismo 2. estabelecer o equilíbrio de forças no Velho Continente.
Cada um daqueles países tinha propósitos específicos e outros comuns a todos. A França, representada por Talleyrand, temia que seu solo fosse ocupado pelas nações que haviam vencido Napoleão Bonaparte.
Agora, vivendo a Restauração dos Bourbons ( a volta ao poder da nobreza liderada por Luís XVIII ), a França desejava preservar a integridade de seu território e legitimar a retomada de um regime absolutista.
A Rússia, cuja delegação enviada ao congresso era encabeçada pelo Tzar Alexandre I, postulava o regresso ao Antigo Regime ( a realidade política anterior à Revolução Francesa ). A Prússia, na pessoa do rei Frederico Guilherme III, além dos mesmos propósitos restauradores, já desejava unificar todos os estados alemães sobre a tutela de Berlim. A Inglaterra, representada por Castlereagh, ambicionava
projetar seu poderio sobre as regiões periféricas ao Velho Continente e estabelecer, na Europa Continental, um “equilíbrio de poder” entre as nações.
No entanto, a “estrela” do congresso de Viena foi o chanceler austríaco Metternich. De fato, a Áustria conhecia um espinhoso problema: o mosaico étnico. O Império Austríaco era habitado por germânicos,húngaros e inúmeros povos eslavos. Por consegüinte, se cada uma dessas comunidades adotasse idéias nacionalistas, aspirando ao seu próprio estado, todo império se esfacelaria. Assim, era necessário extirpar os sonhos nacionais de cada uma das etnias dominadas pelo governo de Viena. Com esse propósito, Metternich propôs o “CONCERTO EUROPEU”, também conhecido como “SISTEMA METTERNICH”, pelo qual seria criada a “QUÍNTUPLA ALIANÇA” (Inglaterra, França, Prússia, Rússia e Áustria), que teria o papel de esmagar todos os levantes liberais e nacionalistas que ocorressem no continente europeu.
Estas nações passariam a desempenhar o papel de “bombeiros” da Europa, “apagando os incêndios” liberais e nacionalistas que eventualmente ocorressem no Continente. Além da proposta austríaca, foram aprovados, no Congresso de Viena, o “PRINCÍPIO DA LEGITIMIDADE”, pelo qual só seriam válidas as dinastias reinantes e as fronteiras anteriores à Revolução Francesa, e a criação da “SANTA ALIANÇA”, cujo propósito era idêntico ao do “Concerto Europeu”.
Estabelecia-se, desta forma, um sistema internacional baseado num equilíbrio de forças voltado ao objetivo de impedir toda e qualquer transformação social e política na Europa. Inegavelmente, tal esquema manteve a paz européia, somente quebrada por pequenos conflitos, durante um século ( a “Paz dos Cem Anos” ), pois o interesse comum de preservar o equilíbrio multipolar fez com que cada uma das nações européias não desejasse destruir as outras, já que se isso ocorresse todo o sistema entraria em colapso. O século XIX, foi sem dúvida, a concretização do eterno e delirante sonho da diplomacia: a estabilidade entres os poderes nacionais.

O SISTEMA EM CRISE

No final do século XIX, o equilíbrio do sistema internacional europeu foi vitimado por uma série de crises.
Inúmeras foram as razões de tal desequilíbrio. Em primeiro lugar, povos submetidos aos grandes impérios desejavam edificar seus estados, abalando o Império Austro-Húngaro, o Russo e o Turco-Otomano.
Irrompiam, na Europa do leste, fortes nacionalismos, notadamente o eslavo e o magiar. Além disso, a unificação da Alemanha, em 1871, quebrava a hegemonia militar e política francesa na Europa Ocidental, criando uma turbulência no “Concerto Europeu”. Turbulência esta, de início, de conseqüências limitadas, pois a Alemanha de Bismarck ainda não tinha pretensões de hegemonia mundial, limitando-se a impor seus interesses na Europa Central. O chanceler alemão temia uma vingança francesa pela derrota de 1870 e buscava alianças no leste. De fato, Bismarck encabeçou a formação da “Aliança dos Três Imperadores”,agrupando Alemanha, Rússia e Austro-Hungria, visando impedir que a França conseguisse aliados na Europa Oriental. Berlim temia que a Alemanha, pela sua posição geográfica, fosse cercada por inimigos a oeste e a leste: o eterno “fantasma” que sempre aterrorizou a nação alemã, a guerra em “duas frentes”. A França, desejosa de revidar a vitória alemã na “Guerra Franco – Prussiana” e recuperar as províncias da Alsácia e Lorena, busca desmembrar a aliança “costurada” por Bismarck.
Outro fator de abalo do sistema europeu foi a “questão do Oriente”. A Inglaterra levava a efeito uma sútil política de enfraquecer o já debilitado império Turco-Otomano, sem, contudo, destruí-lo completamente para evitar a hegemonia russa nas regiões turcomanas, o que ameaçaria a presença britânica na Índia. Nas últimas décadas do século XIX, travaram-se as desgastantes guerras russo-britânicas pela posse do Afeganistão. Estes conflitos receberam a denominação de o “Grande
Jogo”. As outras potências européias tinham também suas ambições: a França aspirava ao controle da Síria e do Líbano, a pretexto de proteger os cristãos contra os muçulmanos; a Alemanha desejava uma presença no Golfo Pérsico, onde já fora descober o petróleo. Berlim, então, acalentou o louco sonho de construir a estrada de ferro Berlim-Bagdá e aliou-se aos turcos, alegando que protegeria o Império Otomano contra a ameaça anglo-francesa. A partir de 1909, os exércitos do sultão passaram a ser
treinados por instrutores alemães. A Rússia, interessada em penetrar nos “mares quentes”, precisava controlar os estreitos turcos do Bósforo e Dardanelos, passagem obrigatória entre o Mar Negro e o Mediterrâneo. Por fim, a Inglaterra, além de cobiçar regiões no Oriente Médio, controlava boa parte da África Negra. Tais pendências, embora envolvessem regiões extra – européias, repercutiam no Velho
Continente, ameaçando a “Paz dos Cem Anos”.
A hegemonia dos imperialismos neocolonialistas ingleses e franceses provocou a ira germânica, já que à Alemanha restaram áreas geográficas de baixos recursos econômicos que não interessavam a Londres e a Paris. No famoso “Congresso de Berlim” (1885), onde se partilhou a África Negra, a Inglaterra e a França “jantaram” a melhor parte do Continente Negro. A Alemanha chegara tarde ao “banquete”, portanto com maior “apetite”, que não foi satisfeito.

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